O dilema estratégico: assumir o país sob colapso ou reconfigurar o STF?
A eleição de 2026 aproxima-se com aquela velha tentação da oposição de querer reassumir o poder a qualquer custo. Mas, olhando o cenário político com pragmatismo e sem paixões cegas, o destino mais didático para o Brasil pode ser deixar que o próprio PT enfrente as consequências das suas escolhas.
Pode parecer contraditório à primeira vista, mas quatro anos a mais de Lula e do Partido dos Trabalhadores são indispensáveis para o próprio eleitorado petista. É só com o ciclo completo, sem desculpas de "herança maldita" ou de governos interrompidos, que a base vai enxergar a engrenagem como ela realmente é. Dentro dessa estrutura, a figura de Lula é a única que realmente entende a articulação do poder e a dinâmica do país; sem o véu da oposição para se esconder, o grupo político terá de entregar resultados reais ou lidar com o desgaste acumulado da própria gestão.
Por outro lado, uma vitória da oposição agora — como uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro — seria entrar direto em uma armadilha perfeita. Assumir o Planalto neste momento significa herdar um cenário econômico e fiscal extremamente delicado, uma bomba-relógio armada que estourará nos próximos anos. Se a direita assume o comando, a narrativa já está pronta: enfrentará quatro anos incessantes de desgaste promovido pela imprensa e pela oposição de esquerda. Qualquer piora nos índices, qualquer ajuste severo ou colapso estrutural será imediatamente atribuído ao novo governo. Venderão a versão de que o país afundou por culpa da nova gestão, ignorando deliberadamente que o estrago já estava feito.
Existe, contudo, um único cenário em que a vitória da direita faria sentido prático no longo prazo: a virada de chave no Supremo Tribunal Federal. Com a aposentadoria compulsória de três ministros no próximo mandato — Luiz Fux em 2028, Cármen Lúcia em 2029 e Gilmar Mendes em 2030 —, um presidente conservador teria o poder de indicar nomes alinhados à sua agenda. É só mudando o perfil da maioria da Corte e quebrando a atual hegemonia que a direita conseguiria governar de fato sem ser travada institucionalmente. Apenas nesse arranjo, limpando o terreno no STF com novas indicações, é que o Brasil poderia, finalmente, começar a engrenar e apresentar melhorias reais.
Ainda assim, fora dessa jogada institucional de longo prazo no Judiciário, deixar que o PT conduza o país neste próximo mandato não é uma concessão, é uma necessidade estratégica de clareza política. É permitir que o ônus da realidade caia exatamente sobre as costas de quem construiu a matriz atual. Deixar a bomba no colo de quem a montou é a única forma de evitar que o discurso do "golpe" ou da "herança" recomece tudo do zero.





